Autocriticismo x autocompaixão

Enquanto o autocriticismo está associado à saúde mental debilitada, a autocompaixão é vista como uma estratégia de regulação emocional na qual as emoções e os pensamentos negativos não são evitados, mas encarados com uma consciência clara, cuidadosa e compreensiva.

Estudos mostram que o autocriticismo e a vergonha aparecem como aspectos centrais em distúrbios psicológicos como depressão, ansiedade, trauma, psicose, transtornos da personalidade e alimentares. Por sua vez, a autocompaixão é associada à diminuição do sentimento de exclusão e da autocrítica.

HOSTILIDADE

O autocriticismo pode ser entendido como um processo psicológico caracterizado por uma maneira hostil, crítica, punitiva ou acusatória de se relacionar com si próprio diante de situações de falhas, desapontamentos e/ou desconfortos.

Mesmo que seja frequentemente considerado desejável por causa de uma aparente função automotivadora, na prática, tem se mostrado associado a maior sofrimento psicológico em uma ampla gama de transtornos mentais.

A autocrítica refere-se a uma forma de autojulgamento e autoavaliação negativos que podem ser direcionados a diversos aspectos do self, como a aparência física, as emoções, os comportamentos, os pensamentos, a personalidade e os atributos intelectuais.

Nesse caso, as pessoas funcionam como suas próprias inimigas, se agridem e se se punem diante das falhas, remoendo e cultivando raiva, arrependimento e culpa.

Embora se autoavaliar seja normal, os indivíduos que experimentam níveis elevados de autocriticismo geralmente adotam uma maneira dura, desdenhosa e hostil em relação a si mesmos, o que geralmente os deixa se sentindo impotentes, deprimidos e ansiosos.

Pesquisas sugerem que é a força das emoções negativas em relação a si mesmas e a inabilidade para lidar com essas emoções que deixam as pessoas altamente autocríticas suscetíveis ao desenvolvimento e à manutenção de vários quadros de transtornos mentais, especialmente a depressão.

Em geral, o mundo de performance no qual se vive tem cada dia mais empurrado os indivíduos para serem autocríticas e buscarem a perfeição, muitas vezes sendo seus próprios algozes quando passam por situações difíceis.

RESPOSTA ADAPTATIVA

O autocriticismo pode ser extremamente tóxico, levando as pessoas a se culparem, se envergonharem e se isolarem. No entanto elas se esquecem muitas vezes de terem um olhar com mais indulgência com si próprias e autocompaixão, um sentimento essencial para a sobrevivência.

A autocompaixão é uma resposta mais adaptativa à falha percebida. Nesse caso, os indivíduos procuram compreender que é possível aprender com os erros, que faz parte da natureza humana errar e sofrer. Assim como entender que, com uma atitude de aceitação e acolhimento, é possível seguir aprendendo com as situações adversas.

A compaixão origina-se como uma resposta empática ao sofrimento, como um processo racional que busca o bem-estar, o alívio de sintomas negativos por meio de ações específicas, direcionadas a encontrar uma solução para o sofrimento.

Sendo assim, é possível entender a autocompaixão como uma estratégia de regulação emocional eficaz e adaptativa para lidar com pensamentos, sentimentos indesejados ou desagradáveis e acontecimentos negativos ou dolorosos.

Também pode ser entendida como a sensibilidade demonstrada para as pessoas compreenderem o próprio sofrimento, se perdoarem e se aceitarem, combinada com a disposição de autoajuda e promoção do bem-estar, a fim de encontrar uma solução para sua própria situação. Compreende bondade, atenção plena e humanidade.

A autocompaixão descreve uma atitude positiva e atenciosa do indivíduo em relação a si próprio diante de possíveis falhas, erros e deficiências individuais. Ela tem também um efeito amortecedor do desenvolvimento de uma cascata de negatividade.

Pode ser moldada por experiências precoces de apego. Como resultado dessa atitude solidária por si mesmo, presume-se que indivíduos com elevada autocompaixão tenham mais saúde mental, menos sintomas depressivos, mais qualidade de vida e bem-estar.

TRATAMENTO PSICOLÓGICO

A boa notícia é que a autocompaixão pode ser aprendida e desenvolvida. Nos últimos anos, vem crescendo o interesse pelo estudo da compaixão e pela sua inclusão no tratamento de pacientes com dificuldades psicológicas complexas e sérias, com histórias precoces de abuso, negligência, hostilidade, criticismo, rejeição e ausência de afetividade.

Intervenções baseadas em autocompaixão individual e em grupo com sessões breves têm sido propostas por estudiosos utilizando técnicas baseadas na terapia cognitivo-comportamental e mindfulness para ajudar uma infinidade de contextos e situações.

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