Distorções cognitivas: pensamentos e sentimentos na infância

Estudos identificam que muitas crianças com transtorno de ansiedade apresentam distorções cognitivas. A repetição desse conteúdo depreciativo impacta negativamente nos pensamentos, sentimentos e comportamentos, afetando o bem-estar da garotada, na forma como enxerga o mundo e no seu funcionamento adaptativo.

Pensamentos negativos são comuns e todo mundo tem, mas é preciso ter cuidado para que não se tornem recorrentes a ponto de virarem algo comum e se transformar em padrões já na infância, pois as distorções cognitivas podem orientar como as informações e os eventos são interpretados ao longo de toda vida da pessoa.

Realidade distorcida

As distorções cognitivas são padrões de pensamento disfuncionais que interferem no processamento cognitivo das crianças, comprometendo a interpretação das situações cotidianas e influenciando seu modo de pensar, sentir e agir. Em outras palavras, a pessoa pensa sobre a realidade de maneira distorcida, o que resulta em sofrimento.

Tudo o que se faz é processado pelo cérebro, ou seja, os seres humanos geram pensamentos sobre todas as coisas que vivenciam. Além disso, têm a capacidade, não só de pensar sobre sua realidade atual, mas, também, de reviverem na mente os acontecimentos do passado e refletir sobre o futuro.

Ainda que essas sejam capacidades incríveis, elas têm potencial de abalar, pois nem tudo o que se pensa é positivo e motivador. Muitas crianças, ao contrário, têm uma visão negativa de si mesmas e de seus contextos de vivência por meio das distorções cognitivas.

Consequências no dia a dia

O problema não seria tão ruim se afetasse apenas os pensamentos. A questão é que tudo o que o indivíduo pensa está ligado às suas emoções e aos seus comportamentos. Ou seja, uma criança que tem distorções cognitivas e se vê de modo negativo vai apresentar sentimentos como ansiedade, tristeza e frustração com mais frequência.

Além do mais, vai passar a se comportar de maneira disfuncional, seja se afastando dos amigos, por considerar que eles não têm apreço por ele, seja desenvolvendo até problemas mais sérios, como depressão e transtornos alimentares, por exemplo.

Entre as principais distorções cognitivas conhecidas, constam: personalização, filtro mental, generalização, maximização e minimização, pensamento dicotômico ou polarizado, raciocínio emocional, leitura da mente, catastrofização, conclusões precipitadas, imperativos, rotulação e atribuição de culpa.

TCC

O psiquiatra norte-americano Aaron Beck, considerado o pai da terapia cognitivo-comportamental (TCC), relaciona as distorções cognitivas como precursoras de alguns transtornos psicológicos, como a ansiedade e a depressão. Para Beck, eliminar tais pensamentos improdutivos e sabotadores é uma forma de combater essas doenças tão frequentes na sociedade, inclusive na infância.

Inúmeros artigos publicados nas últimas décadas têm demonstrado a efetividade TCC no tratamento das distorções cognitivas, uma vez que ela parte de três proposições fundamentais: a atividade cognitiva influencia no comportamento; a atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada; e o comportamento desejado pode ser influenciado mediante mudanças cognitivas.

Corrigir as distorções cognitivas é um dos pilares do tratamento. O paciente é auxiliado na identificação dos pensamentos automáticos, na categorizacão conforme a distorção cognitiva que representa e na contestação, buscando evidências que comprovem os erros cognitivos. Esse mapeamento cognitivo é fundamental para que as distorções sejam substituídas por pensamentos adaptativos e realistas.

Recursos lúdicos

Para ajudar as crianças a aprenderem sobre as distorções cognitivas e a combatê-las, há recursos lúdicos fundamentados cientificamente na TCC que podem ser utilizados, seja no contexto familiar, seja no contexto clínico.

Um exemplo é o jogo ‘Como sou? Como me vejo’, de autoria da psicóloga Ariádny Abbud e publicado pela editora RIC Jogos.

A ferramenta apresenta diversas possibilidades de intervenção, entre elas: psicoeducar sobre o modelo cognitivo, psicoeducar sobre as emoções, monitorar o humor, verificar como o paciente se enxerga (visão de si), identificar pensamentos, identificar crenças, fazer reestruturação cognitiva e auxiliar no diagnóstico de transtornos alimentares.

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