Maternidade: benefícios da terapia focada na compaixão

Nem tudo são flores na maternidade, pois ela é um desafio diário que afeta as mulheres por sentimentos de dúvida e ambivalência em situações diversas. Nesse contexto, a terapia focada na compaixão (TFC) pode contribuir para o equilíbrio psicológico.

Desde sempre, a maternidade é idealizada, seja no ambiente social, em família ou na propaganda. Espera-se das mães que sejam bonitas, fortes, resistentes e que amem seus bebês de maneira incondicional.

Mas o que acontece com as mães que não vivem um estado pleno de felicidade todo tempo? Com aquelas que se sentem cansadas de uma rotina estressante, frustradas pela interrupção de seus planos pessoais e profissionais, por exemplo?

Algumas crenças de idealização passam a ser descontruídas na realidade e, com o dia a dia, a maternidade vai se consolidando e criando o seu jeito próprio de ser para cada mulher.

Em todos os casos, ser mãe demanda disposição em várias áreas e, principalmente, as de ordem psicológica e emocional, as quais também são essenciais para estabelecer o vínculo afetivo entre mãe e filho.

Estratégias

Sendo assim, é fundamental para as mulheres estarem bem nesse papel da maternidade, reduzindo sintomas de ansiedade e de depressão que podem ocorrer após o nascimento da criança.

Pesquisas apontam o quão benéfico é o exercício da autocompaixão para a maternidade, auxiliando as mães com estratégias mais adequadas para os sentimentos de dúvida e de ambivalência.

A autocompaixão é um encontro da pessoa consigo mesma, é olhar para si com mais compreensão e de maneira afetuosa.

Exercitar a autocompaixão na maternidade é uma oportunidade de compreender que aprender a ser mãe pode gerar conflitos internos e externos. Diante disso, é possível para a mãe adotar uma postura de generosidade consigo própria e com afeto.

Entre as atitudes que envolvem a autocompaixão, estão ser bondosa consigo mesma, evitar autocrítica severa, ter uma consciência equilibrada dos próprios pensamentos e sentimentos, não negar o sofrimento, não se isolar das pessoas e compreender que o sofrimento é parte das experiências de todo ser humano.

TFC

A terapia focada na compaixão (TFC) se enquadra entre as terapias cognitivo-comportamentais de terceira geração e vem sendo bem-sucedida no tratamento de pacientes com depressão, ansiedade, transtornos alimentares e da personalidade, assim como de outros distúrbios mentais.

Com origem no início do século 21, a TFC foi desenvolvida ao longo dos atendimentos e observações do psicólogo clínico e pesquisador britânico Paul Gilbert. Baseia-se em conhecimentos da psicologia evolucionista e das neurociências e na teoria do apego.

Também tem influências de filosofias orientais, como o budismo, que há muitos anos vêm tentando mostrar a importância da compaixão para o bem-estar individual e social.

Mais do que uma filosofia ou princípios religiosos, a compaixão é uma habilidade necessária que pode ser aprendida e exercitada e que comprovadamente traz inúmeros benefícios, inclusive na maternidade.

Autocriticismo

Inicialmente, a terapia focada na compaixão foi desenvolvida para pessoas com profundo sentimento de vergonha e alto grau de autocriticismo, com dificuldade de serem calorosas e gentis consigo mesmas e de avançar em seu tratamento com terapias tradicionais.

Com o passar do tempo, foi constatada sua efetividade no tratamento de vários outros transtornos mentais.

A TFC atua, principalmente, para flexibilizar o autocriticismo, o sentimento de vergonha e a maneira como as pessoas lidam com suas emoções. A ideia é fortalecer um sistema interno de aconchego e acolhimento como forma de lidar com as emoções e desenvolver aceitação e autocompaixão em vez de autocrítica exagerada.

A terapia focada na compaixão, portanto, ressalta a importância de desenvolver e fomentar a habilidade das pessoas para acessarem e direcionarem conscientemente motivações e emoções promotoras de vínculo e cuidado, com elas mesmas e com os outros, cultivando a compaixão e ajudando na organização do cérebro de maneira a promover a saúde mental, a inteligência e a regulação emocional.

Outros benefícios da TFC são o desenvolvimento de uma melhor percepção do indivíduo de si mesmo, autoconhecimento, alívio de sofrimentos, bem-estar interno, melhora nos relacionamentos e uma vida mais equilibrada e feliz.

Técnicas

Tal abordagem terapêutica possui uma ampla diversidade de técnicas para auxiliar na criação e no aumento da autocompaixão, passando pela terapia cognitivo-comportamental, gestalt e mindfulness (atenção plena).

Nos atendimentos terapêuticos, além da escuta atenta e empática, é trabalhado o treino da mente compassiva, em que o paciente aprende, exercita e promove a autocompaixão, a gentileza, a abertura, a aceitação e o cultivo do estado de presença em sua vida diária, mesmo diante dos desafios que está enfrentando.

Ferramenta

Autocompaixão – 100 cards’, de autoria das psicólogas Luana Ribeiro e Maria Eduarda de Freitas, é uma ferramenta que pode ser utilizada para o desenvolvimento da autocompaixão.

A publicação da editora RIC Jogos tem como objetivo treinar uma mente autocompassiva que gere satisfação com a vida, promova sentimentos de conexão social, estimule a iniciativa pessoal e desenvolva o afeto positivo.

O material tem a pretensão de seguir a psicoeducação. O profissional da saúde mental, ao avaliar a necessidade de trabalhar a autocompaixão, pode fazer uso do recurso para possibilitar que o paciente tenha uma nova perspectiva de praticar a gentileza consigo e, assim, enfraquecer os sentimentos negativos e os pensamentos autocríticos.

Os cards podem ser utilizados de forma livre ou estruturada, dependendo da condução do terapeuta. O paciente, ao praticar o exercício da autocompaixão fora do consultório, deve fazer o registro do antes e depois dos seus pensamentos.

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