O que é seletividade alimentar e como evitá-la na infância?

A seletividade alimentar é atualmente classificada como transtorno alimentar restritivo/evitativo (TARE). Mais do que um comedor exigente, o indivíduo com o distúrbio costuma ter aversão sensorial a certos sabores, texturas ou cores, chegando a desenvolver fobia de determinados alimentos.

Consequentemente, alimenta-se com uma dieta restrita, afetando principalmente a ingestão de micronutrientes, como vitaminas e minerais.

A diversidade alimentar é uma das principais fontes de saúde. É o ponto inicial para que, em conjunto com o exercício físico, o sono de qualidade e a gestão do estresse, as pessoas consigam se desenvolver e manter sua saúde plena. Por isso, a importância de uma dieta variada e equilibrada.

Por outro lado, quando elas rejeitam diversos tipos de alimentos, ou seja, têm seletividade alimentar, podem privar seu organismo de categorias de nutrientes importantes.

Nesses casos, para ampliar a dieta, é preciso vencer barreiras e restrições muitas vezes iniciadas na infância.

Características

A seletividade alimentar pode afetar adultos e crianças que apresentam sintomas psicológicos como ansiedade e depressão, bem como convívio social prejudicado. Além disso, há outras características em comum.

Uma delas é comer apenas alimentos que são vistos como seguros ou aceitáveis, ou seja, não há rotatividade alimentar.

Esses indivíduos desenvolvem o hábito de comer sempre o mesmo alimento, textura e tempero, o que leva a uma certa monotonia alimentar. Também costumam alegar que não gostam de determinados alimentos antes mesmo de experimentá-los.

Para quem tem seletividade alimentar, a escolha é geralmente sempre pelos mesmos alimentos, determinadas marcas ou mesmo temperatura em que serão ingeridos (frio ou quente).

Quem tem TARE também sente aversão a grupos alimentares inteiros, como frutas, vegetais ou leguminosas e fica angustiado quando é encorajado a experimentar alimentos diferentes, por causa de uma fobia ou medo de engasgar ou vomitar.

Outros sintomas da seletividade alimentar são náusea e vômito ao se deparar com a necessidade de comer novos alimentos.

Por sua vez, as crianças fecham a boca para evitar de qualquer maneira a ingestão de um alimento diferente.

É importante destacar que a maioria das pessoas com seletividade alimentar não tem problemas de peso e geralmente está dentro da faixa normal de índice de massa corporal (IMC). Também é comum que não apresentem carência de macronutrientes, sofrendo, no entanto, falta de micronutrientes.

Outro ponto são as sensibilidades alimentares que podem ser causadas pelo excesso de determinado nutriente ou antinutriente no organismo, como resultado da não rotatividade na ingestão de alimentos.

Causas

Cientistas apontam que há componentes biológicos e psicológicos na etiologia da seletividade alimentar. Alguns estudos levantam que essas pessoas podem ter um paladar muito aguçado, o que provoca a rejeição a sabores mais fortes.

Outros estudos mostram que a rejeição a determinados alimentos se dá muito mais por outras vias sensoriais e não pelo gosto, por exemplo, não gostar do cheiro ou da aparência de um alimento.

Em relação ao aspecto psicológico, alguns indivíduos podem associar emoções negativas a determinados alimentos, por exemplo, um mal-estar físico causado pela comida, como engasgos ou problemas gastrointestinais.

As causas da seletividade alimentar, no entanto, são complexas e podem estar relacionadas a questões familiares e contextos sociais.

Prevenção

Pesquisas indicam que, na maioria das vezes, o TARE tem início na infância, no processo de formação do paladar da criança.

A amamentação é um facilitador para a aceitação de novos alimentos, pois as variações na dieta da mãe se refletem nas características sensoriais do leite materno. Assim, quanto mais variada a dieta da mãe, mais variado tende a ser o paladar do filho.

Por outro lado, é recomendado que não se atrase a introdução gradual de alimentos sólidos na dieta do bebê. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), esse processo deve ter início aos sete meses. Nesse período, é ainda mais importante alternar as formas de preparo e textura dos alimentos oferecidos.

A maneira de oferecer alimentos também deve ser variada, como alternar entre dar comida na boca ou deixar comer sozinho, assim como oferecer os alimentos em diferentes locais da casa e deixar a criança explorá-los por conta própria.

A família e os cuidadores devem prezar pelo ambiente onde a criança se alimenta. Se é agradável e novos alimentos são oferecidos sem coação, o pequeno fica muito mais disposto a desenvolver preferência por eles.

Recurso terapêutico

E quando for necessária a terapia alimentar, um importante recurso que pode ser utilizado é o ‘Papo alimentar: 100 cards para conversar sobre a alimentação, de autoria da psicóloga Lívia Rodrigues e publicado pela editora RICard’s.

Para ser usada em contexto clínico com crianças a partir dos quatro anos de idade, a ferramenta possibilita ao terapeuta e às crianças que, de forma lúdica, conversem sobre alimentação.

E, assim, acessem as limitações e crenças dos pacientes sobre esse processo, de modo que as intervenções possam ter mais eficácia e, consequentemente, o tratamento terapêutico seja mais efetivo.

O terapeuta pode selecionar as cartas a serem respondidas de acordo com a demanda prioritária a ser investigada, de modo que o uso ocorra gradativamente e de forma aleatória, não precisando seguir uma ordem de perguntas.

Assim, quando a criança termina de responder às perguntas, o terapeuta tem um grande subsídio para um plano terapêutico individualizado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.