Terapia cognitivo-comportamental para transtornos aditivos

Os transtornos aditivos geralmente são relacionados à dependência química de substâncias como álcool, nicotina e outras drogas. No entanto incluem diferentes tipos de vícios, como em jogos de azar, internet e aparelhos eletrônicos, compras, exercícios físicos, sexo, comida e até mesmo trabalho. Para o tratamento de todos eles, a terapia cognitivo-comportamental tem demonstrado eficácia.

Pode ser difícil saber se um determinado comportamento é um simples hábito ou uma adicção. Um aspecto básico da identificação de um vício é o quanto ele priva a pessoa da própria liberdade.

Um adicto não parece ter escolha em relação à adicção e pode até mesmo ir às últimas consequências para mantê-la. Isso pode trazer prejuízos drásticos para si próprio e para as pessoas com quem convive.

IDENTIFICAÇÃO

Os transtornos aditivos costumam ter cinco características que possibilitam identificá-los. Uma delas é a tolerância, ou seja, a necessidade cada vez maior de uma determinada substância ou recompensa para se obter o mesmo efeito. Indica que a pessoa nunca está satisfeita, sempre precisa mais, com a ilusão de que, se tiver um pouco mais, tudo ficará bem.

A outra é a abstinência, uma reação do organismo que, por estar acostumado a uma certa estimulação, gera estresse se a mesma está ausente. A interrupção do comportamento aditivo é percebida como algo errado pelo sistema nervoso central e pode envolver desde uma simples irritabilidade até tremores ou pânico.

Por sua vez, o autoengano é a capacidade do indivíduo de se iludir para manter o vício. É quando ele acredita que está tudo bem, que tem controle sobre a adicção, que pode parar quando quiser e outras racionalizações.

Outra característica das pessoas com transtornos aditivos é a perda de controle, ou seja, a sensação de não ter mais controle sobre o seu comportamento. É possível identificar a perda de controle, por exemplo, pelas diversas tentativas frustradas de interromper o comportamento mal-adaptativo.

Já a distorção da atenção é quando o foco da adicção tende a ser também o foco da atenção da pessoa. Sendo assim, ela passa boa parte do tempo imaginando como será quando estiver dentro do seu vício e pensa constantemente em como conseguir se engajar na adicção. Em suma, o vício passa a controlar grande parte da vida.

TRATAMENTO

A terapia cognitivo-comportamental tem se mostrado eficaz no tratamento dos transtornos aditivos, inclusive evitando episódios de recaída. Essa abordagem da psicologia considera que os sintomas emocionais, fisiológicos e comportamentais prejudiciais são resultados da forma como as pessoas interpretam as situações, ou seja, de suas distorções cognitivas.

Portanto, para auxiliar os pacientes a lidarem com seus vícios, a TCC visa mudar seus sistemas de significados por meio de uma reprogramação mental. Consiste em transformar os pensamentos disfuncionais em crenças saudáveis e positivas que auxiliam os pacientes a lidarem com a adicção.

A terapia cognitivo-comportamental contribui na superação dos transtornos aditivos ajudando o indivíduo a eliminar crenças falsas e inseguranças que levam ao abuso de substâncias, fornecendo ferramentas para melhorar seu humor e para identificar e controlar gatilhos.

Trata-se de uma abordagem prática para resolver problemas e é considerada uma forma de tratamento de curto prazo. É elaborada em torno do paciente e não o contrário. A personalidade e as necessidades individuais específicas são o que alimenta a personalização da TCC para cada pessoa.

TÉCNICAS

Entre as principais técnicas da terapia cognitivo-comportamental usadas no tratamento dos transtornos aditivos, está a identificação de pensamentos automáticos, que pode ser feita através do registro diário de pensamentos disfuncionais.

Também entre as técnicas, constam o questionamento socrático, a verificação da veracidade dos pensamentos, a identificação de alto risco, a entrevista motivacional, o treinamento de habilidades sociais, o treinamento de autocontrole, assertividade e relaxamento, assim como o manejo de estresse, depressão e ansiedade.

Tais técnicas podem ser praticadas nas seções individuais ou em grupo e em casa.

FERRAMENTAS

Atividades terapêuticas lúdicas também podem ser utilizadas como ferramentas no tratamento de casos de pacientes adictos, seja para psicoeducação, seja para o treino de habilidades de tolerância ao mal-estar.

O jogo de tabuleiro ‘Detox game – Caminhando nas trilhas da abstinência’, criado pelos psicólogos Dan Roger Pozza e Renata Brasil Araujo, é um recurso para psicoeducar sobre os principais conceitos trabalhados na dependência química, como fissura, lapso, situações de risco, estratégias de enfrentamento, mudança de hábitos, atitudes e abstinência.

A partir da interação de cada jogador com as situações trabalhadas e com as trocas com os demais participantes, a psicoeducação é complementada ao explorar as reações, os comportamentos-problema, as dificuldades e as fragilidades expostas durante a partida.

Composto por 56 cards com perguntas, o jogo ‘Maconha sem viagem’, de autoria das psicólogas Renata Brasil Araujo e Sabrina Presman e da psiquiatra Alessandra Diehl, tem como objetivo fornecer informações científicas a respeito da maconha para adultos, adolescentes e familiares de usuários dessa substância.

Pode ser jogado individualmente ou em grupo, nas famílias, com ou sem a presença de um terapeuta. Tem uma linguagem simples e informa, de modo descontraído, sobre as características da maconha, seus efeitos, benefícios e prejuízos. Ambas publicações estão disponíveis no site www.ricjogos.com.br.

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